DEPOIMENTO FRANCIS: 1ª MARATONA > 02/06/2014

Jogo

Quero contar uma história, uma breve história que é um pouco mais longa que aquela manhã de domingo.

Sempre acreditei em ser um jogador, em não ficar na arquibancada da vida somente vendo o jogo acontecer, mas estar em campo, jogando, por isso penso que as pessoas que enfrentam o desafio de participar de uma maratona, não o fazem pelos 42k. Buscam algo que vai além de superar a linha de chegada. Eu busquei. E me sinto um privilegiado por ter a oportunidade de contar essa história, a minha história.

Quando decidi aceitar o desafio proposto pelo Marialdo de enfrentar os 42 mil 195 metros o fiz porque as 15 semanas que me separavam daquela manhã de domingo não despertaram o meu senso de urgência de maneira adequada. Parecia muito longe. Quase uma brincadeira, uma pegadinha. Aceitei como quem aceita o convite para jogar uma partida qualquer.

Alguns dias depois quando recebi um e-mail com a planilha de treinamento é que realmente tive a dimensão da decisão que havia tomado. Senti o estômago embrulhar. Eram inimagináveis 728 quilômetros em 45 treinos de corrida a serem vencidos. De todos os tipos e intensidades.

Ainda meio tonto procurei conforto em um bate papo com o treinador, e foi aí que vieram as palavras de incentivo: “- Vai arriár é marreca?“. Me dei conta de que as coisas iriam mudar. Minha rotina, minhas prioridades. Percebi que teria que abrir mão de muitas coisas que gostava para poder viver essa história. Sabia que teria que dedicar muito esforço e empenho pessoal, mas principalmente teria que contar com a compreensão das pessoas que amo pela ausência e distanciamento temporário. A para minha sorte ela veio no apoio incondicional da minha mulher.

Naquele dia acordei as 4:30. Feliz. Me sentia confiante e acreditava que tudo ia dar certo, porque as mais de 60 horas de corridas de preparação faziam com que as próximas horas parecerem somente algumas horas.

No corredor de largada junto com um monte de pessoas ao meu redor me senti sozinho por um instante. Naquele momento eu negociava com meus pensamentos. Insistia em me sentir bem, livre dos meus medos, das dores acumuladas e das dificuldades. Via a apreensão da minha mulher me observando, queria transmitir para ela a confiança e a força que eu carregava. Eu tinha profundo respeito por aqueles quilômetros que viriam, mas confiava que tudo daria certo.

Ao longo do caminho a confiança foi sendo testada a cada sensação de cansaço, a cada corredor que vi machucado pelo caminho, a cada arrepio do corpo reagindo ao esforço extremo. Essa confiança foi sendo substituída pela humildade, uma sensação de que não depende só da nossa vontade a realização dessa empreitada. O incentivo dos amigos no caminho ajudaram a manter o passo firme.

 

Quando faltavam poucas centenas de metros para o fim, vi um amigo vindo na minha direção. Me dei conta do que tinha acabado de realizar.

A sensação que tomou conta foi de pura felicidade, um tremendo orgulho de ver minha mulher feliz por me ver bem, em perceber a satisfação do Marialdo e da Elo em ver mais um dos seus “projetos de atletas” simplesmente chegando. Foi incrível. Por 1 minuto me senti o super-homem. Para mim não era só a linha de chegada de uma maratona, era a sensação de missão cumprida. De saber que tive coragem de enfrentar o desafio e conseguir vencer.

Olhando para trás é bem assustador ver o caminho percorrido. Terminar a corrida e olhar aquele painel imenso com o trajeto que foi vencido. Ufa. Foi uma experiência fascinante, de um jeito difícil de explicar. Difícil também é explicar quanto o apoio incondicional da milhar mulher foi capaz de me levar até ali. Te amo.

Não fui em busca de um tempo ótimo ou de um desempenho superior, pois não sou um atleta. Sou uma pessoa comum que foi em busca de uma realização, um feito reservado somente aqueles que se permitem acreditar. Jogar.

Ao longo desses quase dois anos de convivência com a família Inspire fiz muitos amigos, entre professores e colegas, dividi coisas com pessoas incríveis, pessoas que certamente foram capazes de superar todo o tipo de barreiras para se tornarem pessoas fora de série. Obrigado por isso.

Essa é minha história. Eu sou mais uma das histórias dessa fantástica fábrica de maratonistas, dessa fábrica de realização de sonhos conduzida por essas pessoas incríveis. Obrigado por me permitir viver e contar essa história.

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